domingo, 26 de abril de 2009

Accept My Love*

- Vá embora e feche a porta. Pro sabor dos nossos sonhos não fugir...
- Não, não. Está sem poesia isto. Parece uma bula de algum remédio para escritores com falta de concentração.
Arnaldo riu durante algum tempo, talvez por efeito do uísque com pouco gelo. Santiago apagou o cigarro no cinzeiro, não havia achado graça, ou talvez ainda não tivesse bebido o suficiente.
- Acho que o problema está nas definições, Arnaldo. Antigamente as pessoas diriam que isso é falta do que fazer, mas hoje você poderá tratar isso como DDA. E se falarmos das definições inúteis?
- Melhor não falarmos de nada.
A garçonete chegou até a mesa. Há algumas semanas descobriram aquele bar, mas o que os levava até lá não era a bebida barata nem o blues tocando no rádio, e sim ela. A garçonete. Arnaldo largou o copo, desatento, sob a folha em que tentavam escrever aquela poesia. Santiago soltou o maço de cigarros e segurou o rosto com uma das mãos, escorando-se na mesa. Ela merecia toda a atenção e não podiam perder aquele momento com pequenos gestos desnecessários. As curvas eram cautelosamente medidas por aqueles olhos sedentos. Ela debruçou-se levemente sob a mesa, puxando para si a garrafa já vazia. Seus seios quase tocaram a face de Santiago que conteve-se para não atacá-los. Eles sim mereciam toda poesia. Ela era poesia.
- Querem mais alguma coisa, rapazes?
Disse graciosamente a garçonete.
- O número do teu telefone, se possível.
Brincou Arnaldo, entre sorrisos e olhares.
- Creio que 2 uísques seria perfeito, senhorita!
- É pra já!
Ao deixar a mesa, o rebolado da garçonete parecia uma dança sincronizada com a cabeça de Arnaldo e Santiago. Para direita, para esquerda, para direita e para esquerda.
Assim que as curvas da garçonete já estava afastada demais de seus olhos para conseguirem analisá-las, ambos acenderam seus cigarros, tentando obter deles as palavras certas para definir aquela mulher. Santiago foi o primeiro a puxar a folha para si e tentar escrever algo, enquanto Arnaldo colocava um cubo de gelo na boca. Poesia com a inspiração cedida pela garçonete.
- Imagina Santiago, imagina se está mulher fosse minha! Certamente eu me tornaria um poeta invejável, os críticos me chamariam de 'o novo Vinicius de Moraes', não?
- Devaneios de um bêbado, sabes que não é assim, Arnaldo!
- É? E por que?
- O poeta nunca canta a mulher que tem.
Arnaldo concordou com o silêncio comedido entre os dois copos. A garçonete voltava, na mão direita a bandeja, a mão esquerda atrás do corpo, segurando o pequeno bloco. Os olhos dos dois voltaram-se para ela, usando o vestido rubro colado ao corpo, combinando com a boca escarlate. A voz de Santiago acompanhava a de B.B. King no rádio 'I don't even Know your name, but I love you just the same'. A garçonete sorria ouvindo o cantar desafinado de Santiago. Assim que ela chegou a mesa, Arnaldo pôs-se a falar:
-Efervescente sensação de encanto. Ao mesmo tempo que acalma, me desperta o espanto...
A boca escarlate beijou-lhe a face.
-Poupe-me desta poesia embriagada. Gosto das mesmas curvas nas quais os homens se perdem.
Santiago continuava cantando, Arnaldo apenas sentia o escarlate queimar-lhe a tez. A garçonete já se afastava quando aos berros ele declamou:
-Efervescente sensação de encanto.
Ao mesmo tempo que acalma, me desperta o espanto.
De canto,
Eu canto,
um tanto quanto,
em tom de pranto.
Por não saber, se um dia, me cobrirei com teu manto.
Ela sorriu, beijou o dedo indicador e soprou na direção de Arnaldo. Santiago sorria, bebeu alguns goles de uísque, puxou a folha para si e começou a escrever. Terminava um poema quando uma loura adentrou o bar. Seus olhos verdes iluminaram o lugar e sua boca muito rosa lembrava algum doce consumido na infância. Arnaldo e Santiago, no alto da embriaguez, puseram-se a cantar 'so please, please accept my love'. Da cozinha a garçonete voltava, sem o uniforme, os cabelos longos soltos cobrindo o peito e o escarlate ainda mais intenso nos lábios. Então o rosa e o escarlate se encontraram, as curvas da loura e da garçonete tornaram-se uma só. Santiago e Arnaldo olharam-se e no mesmo instante levantaram-se. Sobre a mesa, moedas perdidas no uísque, ou nas curvas da garçonete. Antes de saírem, Santiago tornou a olhá-las, sorrindo para a garçonete disse:
-Me perco em teu instrumento,
brinquedo indecente dos seus descendentes,
que lhe servem de entretenimento e sustento.
Ó musa, em sua blusa, isso sim é espantoso.
Em teu colo, imagino minha cabeça, ilesa, indefesa.
Debaixo do seu manto, me sentiria vitorioso.
Saíram, talvez para outro bar, atrás de mais uísque, ou outra garçonete. Abraçados, cantavam pelas ruas 'I'll, I said, I'll end my life to be with you, yes, I will'.

*Música de B.B. King, mestre do blues
Mais um conto escrito com o Marcel.